Alguns cabos medem entre 150 e 700m de comprimento. A altura ao chão também varia. Como a floresta é feita de montes e vales fundos, há partes em que voamos a mais de 200m do chão. A entrada nas cabanas é sempre feita através do voo no cabo. Tanto nas cabanas, como nas árvores que servem de ligação entre cabos, há umas plataformazitas para aterrarmos. Às vezes há colchões verdes no tronco da árvores, tipo um airbag improvisado para o caso de algum turista decidir fazer como nos desenhos animados.

Depois, há as caminhadas pelos trilhos à procura das espécies locais. O princípio parece interessante. Andar na floresta acompanhado de um guia que nos leva ao spot certo e vai mostrando o que ver. Mas depende do guia. E os guias são locais, não falam inglês e fazem a coisa uma bocado a despachar. Ficamos com a sensação de que têm coisas mais importantes para fazer e, muitas vezes, não se vê grande coisa, fica a desculpa de que "é muito difícil apanhar os animais". Um dos grupos teve a sorte de apanhar um guia mais dedicado. Não falava inglês, mas levava um caderninho com fotos dos animais. Quando se ouvia um som ele mostrava a foto do animal que o estava a fazer, depois procurava-o e nalguns casos foi possível ver.

Subir às árvores mais altas e ficar a admirar o espectáculo deslumbrante de ter uma floresta aos teus pés. Fazer uma caminhada pela selva a dentro e depois parar a escutar e ver. Vê-se pouco e ouve-se muito. Sentado no meio da floresta, ao nível do chão, o olhar fica limitado pela vegetação ultra densa. É tudo verde, rasgado a tons de amarelo pelos raios de sol que encontram caminho. Tudo o que mexe, respira e vive está escondido. Só se ouve, e ouve-se muita coisa.

Mas os sons são mais muito mais enigmáticos do que a vista. Se batemos os olhos num ser vivo, mesmo que por uma fracção de segundo, mais coisa menos coisa uma pessoa entende do que se tratava. Mas sons (e os cheiros) para um ocidental citadino perdido na floresta do Laos, tornam-se numa miscelanea de coisas indecifráveis. Os olhos saltam na direcção de um estalido, e depois, no lado oposto, de um "crack", mas não vêem nada. A cabeça parece um limpa para brisas na velocidade máxima, a tentar apanhar os sons com os olhos, mas ver a origem do som é dificil. Sentado num tronco cheio de formigas vermelhas, a 45 min a pé da pessoa mais próxima, às 4 e meia da tarde, numa floresta de sons enigmáticos senti-me feliz e tranquilo. Até começar a ser mordido.

À noite a floresta acorda. É um cliché. Mas estando lá e tendo a oportunidade de ver e ouvir ao vivo, esquece lá o cliché. Um tipo fica varado com a vida que ali se passa. Ainda por cima estava Lua cheia. Eu a Chrissi e o Hendrick estávamos à conversa, depois do jantar de sticky rice e legumes variados cozidos, que nos chegara por cabo. Bebemos o nosso chá e esfumaçamos um cigarrito de enrolar. Nisto, os galhos mais próximos da nossa árvore abanaram suavemente. Ao restolhar das folhas apagamos as velas e ficamos de respiração suspensa de olhos e ouvidos bem abertos. Levantamo-nos devarinho e colamo-nos à vedação de pouco mais de um metro, agachados. E então o gibão dá dois piparotes, de um ramo para outro, não se ouve nada, depois com a leveza de um astronauta na Lua lança-se num voo descendente de uns 30 metros até ao ramo doutra árvore. Se os olhos fossem obturadores teriam registado um mamífero, crâneo de primata, dois braços estendidos, as mãos em forma de garra em busca do ramo que só ele vê, as pernas de trás encolhidas com o movimento de mola, o corpo preto fica prata banhado pela Lua cheia. Depois, se os olhos fossem obturadores, teria chegado ao meu computador, enfiava um dedo no terminal USB, fazia download e a foto ou video estaria agora aqui.

Duas horas mais tarde, depois de digerirmos a emoção de termos visto o gibão ninja a 10 metros dos nossos narizes, depois de muita conversa e gargalhada, depois de partilharmos histórias como se nos conhecessemos há vinte anos, fomos dormir de sorriso nos lábios. Cinco minutos depois de tudo estar sossegado, e sem luzes, o ar enche-se dos "tic tic tics" das patinhas dos amigos roedores que finalmente podem voltar à sua árvore por direito próprio.




